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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A Criança em Ruínas, José Luís Peixoto – p.53

eram as estrelas, caminhante,
o mapa que não soubeste decifrar
mas vais continuar e continuar
perdido para sempre.

*José Luís Peixoto – A Criança em Ruínas, Quasi
p.53 – eram as estrelas, caminhante

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A Criança em Ruínas, José Luís Peixoto – p.52

estou só numa praça vazia sem mim
ao meu lado um livro que nada mais
tem a dizer numa praça que acordou
antes da cidade para esta hora negra
da manhã dou as palavras aos pombos
dou-lhes o significado do meu nome
distribuo-me aos pombos nestas pedras
negras de inverno numa manhã tão longe dos
domingos a brincar no chão da cozinha
tão longe do dia bem vestido e nervoso
do casamento numa praça ao lado de
um livro que nada mais tem a dizer

*José Luís Peixoto – A Criança em Ruínas, Quasi
p.52 – estou só numa praça vazia sem mim

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A Criança em Ruínas, José Luís Peixoto – p.41

entre mim e o meu silêncio há gritos de cores estrondosas
e magias recortadas dos sonhos que acontecem naturalmente.
eu sou a cama onde me deito, todas as noites diferente,
eu sou o sorriso estridente dos pássaros no céu todo,
eu sou o mar, o oceano velho a abrir a boca numa
gruta que assusta as crianças e os homens que conhecem
o mundo. eu sou o que não devia ser e rio, rio,
rio, porque sou puro, porque sou um pouco da alegria,
porque mil mãos e dez mil dedos me percorrem o corpo
e me beijam. entre mim e o meu silêncio há uma
confusão de equívocos que não entendo e não admito.
sou arrogante, porque sou do país em que inventaram
a arrogância. sou miserável. que sei eu? sou um viajante
com destino traçado, como o fumo deste cigarro que
desaparece indeciso e já esqueceu de onde veio. e rio,
rio, rio, perdido e desalmado, de dentes sujos e quase
doente, porque a minha é esta esperança e esta vontade
de nascer em cada manhã, em cada rosto, em cada
fósforo aceso, em cada estrela. rio, rio, rio, porque meu
é o amor e o luto e a fome e todas as coisas
que fazem esta vida que não entendo e persigo.
eu sou um homem vivo a sentir cada pedra,
eu sou um homem vivo a sentir cada montanha,
eu sou um homem vivo a sentir cada grão de areia.
desordenadamente, eu sou alguém que é eu sem o saber,
entre mim e o meu silêncio há um desentendimento
esculpido nas flores e nas nuvens, rio, rio, rio,
eu sou a vida e o sol a iluminar-me.

*José Luís Peixoto – A Criança em Ruínas, Quasi
p.41 – entre mim e o meu silêncio há gritos de cores estrondosas

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A Criança em Ruínas, José Luís Peixoto – p.34

ninguém

*José Luís Peixoto – A Criança em Ruínas, Quasi
p.34 – ninguém

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A Criança em Ruínas, José Luís Peixoto – p.33

estou sozinho de olhos abertos para a escuridão. estou sozinho.
estou sozinho e nunca aprendi a estar sozinho. estou sozinho.
sinto falta de palavras. estou sozinho. estou sozinho.
sinto falta de uns olhos onde possa imaginar. estou sozinho.
sinto a falta de mim em mim. estou sozinho. estou sozinho.
estou sozinho.

*José Luís Peixoto – A Criança em Ruínas, Quasi
p.33 – estou sozinho de olhos abertos para a escuridão. estou sozinho

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A Criança em Ruínas, José Luís Peixoto – p.30

vejo na minha caligrafia as escadas do meu destino.
aquela casa tão grande com um quintal de galinhas
a morrerem ciclicamente. as malvas entristecidas
em canteiros já sem esperança. e em cada estrofe de
estar sentado perante a paisagem, o poema único e final.
as mulheres arrastam as tardes, se os ramos das laranjeiras
eram inesquecíveis? cada palavra possui um palmo
desse quintal infinito.

a fruteira sobre a mesa da cozinha é sangue no poema.
o meu destino emparedou-se, e um destino é para sempre.
as minhas mão estendidas são atravessadas pela luz
que mostra no ar a dança do pó. respondo tantas coisa aos
talheres guardados na gaveta.

chegam as vozes que nunca partiram. chegam os rostos
que sonho quando acordo de repente a chorar. agora,
és o homem da casa, disseram-me. e já não havia casa.

a mãe passa um ano, como as crianças que ainda brincam
numa rua imaginária passam as horas. mãe inocente
e humilhada pelo céu e pelas estrelas, pelos cães a ladrarem
ao longe, pelas mulheres a caiarem as paredes, pelos sinos
que nos chamam e pela estrada do cemitério. mãe,
vida multiplicada, como se o teu corpo se rasgasse a carne
fosse a terra e as palavras, e os ossos fossem os ramos das
laranjeiras e as palavras.

felizmente, há os versos, último esconderijo da pureza.
porque o destino são os versos e os pombos que cruzam
o céu em círculos que sempre regressam.

as minhas irmãs semeiam pensamentos na escuridão
absoluta das manhãs. este é o dia presente, esta é a
hora presente. agora, neste instante, sobres esta letra última,
repousa o peso dos teus cabelos. os nosso sonhos
atravessam a janela e estendem-se no chão, vêm do céu,
desenham-nos as sombras rente aos corpos velhos
e sem uso. tomamos banho. a água. a água. os nossos
sonhos dissolvem-se lentamente onde os esquecemos.

estou na casa onde as memórias se sentam nas cadeiras
para jantar em pratos invisíveis. aquele quadro é bonito.
aquela jarra foi comprada na feira de outubro. aquele
livro tem palavras que não significam nada.

existe uma fruteira na mesa onde a mãe serve todos os dias
o meu destino. existe um corredor a lembrar todos os dias
a solidão povoada. existe papel e versos. existe tudo aquilo
que não digo, que não sei dizer, que está na minha caligrafia,
que está ordenado nas folhas de tantos outonos do quintal
[abandonado.
existe uma mesa, uma lareira apagada, as mãos, uma sepultura
sozinho no cemitério, os olhos, os ossos, a minha pele e as horas
escritas no futuro impossível

*José Luís Peixoto – A Criança em Ruínas, Quasi
p.30 – vejo na minha caligrafia as escadas do meu destino

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A Criança em Ruínas, José Luís Peixoto – p.29

tudo será arrumado um dia.
os segredos serão organizados nas indeléveis palavras.
as aves de outrora existirão nas folhas paginadas,
na pele e nos planaltos.
as aves, os pombos, as cegonhas, planarão
dentro da terra e da cinza dos arquivos.

o pó será organizado um dia.
cada homem será uma chama nas estantes das bibliotecas.
os olhares, os gestos, o que não soubemos explicar, as mãos,
serão fumo por ordem alfabética.
um dia, depois de mim,
estes versos serão ossos
mudos e incompreensíveis.
as flores sufocarão no ar que respirei.
as árvores crescer-me-ão do peito.

e quando as paredes mortas, o céu,
forem só esta mesa onde escrevo,
serei o lugar vago de mim e os meus passos
a subir, a descer, uma escada plúmbea.
e quando a noite, acordarão as sombras
na sua ordem perfeita
e incandescente.

*José Luís Peixoto – A Criança em Ruínas, Quasi
p.29 – tudo será arrumado um dia

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A Criança em Ruínas, José Luís Peixoto – p.14

ainda que tu estejas aí e tu estejas aí e
eu esteja aqui estaremos sempre no
mesmo sítio se fecharmos os olhos
serás sempre tu e tu que me ensinarás
a nadar seremos sempre nós sob
o sol morno de Julho e o véu ténue
do nosso silêncio será sempre o
teu e o teu e o meu sorriso a cair
e a gritar de alegria ao mergulhar
na água ao procurar um abraço que
não precisa de ser dado serão
sempre os teus e os teus e os meus
cabelos molhados na respiração
suave das parreiras sempre as tuas
e as tuas e as minhas mãos que não
precisam de se dar para se sentir
ainda que tu estejas aí e tu estejas aí e
eu esteja aqui estaremos sempre
juntos nesta tarde de sol de Julho
a nadarmos sob o planar sereno dos
pombos no tanque pouco fundo da
nossa horta sempre no tanque fresco
da horta que construíram para nós
para que na vida pudéssemos ser
mana e mana e mano sempre

*José Luís Peixoto – A Criança em Ruínas, Quasi
p.29 – tudo será arrumado um dia

domingo, 2 de agosto de 2009

Fragmentos - Livro I - Ana de Sousa, 252

252

desprende-se de meu corpo a arritmia das voláteis simulações do toque.
pedi que partisse e que só regressasse se de ti trouxesse o cheiro da pele,
ou a sua maciez,
soro para o desfalecimento em que incorro,
agora que a minha se descolora pela ausência de teu calor.

ISIN 989-95000-0-3

Fragmentos - Livro I - Ana de Sousa, 216

216

oito horas.
não uso relógio.
não ouso medir o tempo e ainda menos subjuga-lo a critérios tão pequenos como a minha vida ou os meus dias, porque um de cada vez, instante a instante, porque existo mais num não tempo, como se flutuando.
o tempo não me é natural e nem é presença.
difícil ser assim, quando o tempo é entidade omnipresente para o universo.
ainda assim me seria natural dizer que tudo tem um tempo, sirvo-me dele no condicionar das razões e dos efeitos, deixo que me sirva para que não seja absoluta a minha alienação.

e os teus pés, agora, onde estão?
neste tempo instante teu.

ISIN 989-95000-0-3

Fragmentos - Livro I - Ana de Sousa, 201

201

anda,
deita-te comigo rente à erva.
pousa o teu rosto num lugar igual.
esquece-te da tua vida e alimenta tudo o que contrói a sua.
não tenhas medo das formigas.

ISIN 989-95000-0-3

Fragmentos - Livro I - Ana de Sousa, 191

191

disseram-me as pedras, quando mobilizei o corpo na contemplação,
que estes são tempos difíceis para o mundo e que as marés só falam do nada
que corrompe o tudo,
como se, fatidicamente, não mais possível fosse vislumbrar o querer comum
como o bem maior.
sobrepõem-se à terra, as migalhas, e sufocam-na.

ISIN 989-95000-0-3

Fragmentos - Livro I - Ana de Sousa, 188

188

de repente o peito solta do silêncio o grito, libertand0 a quase dor,
partem-se os vidros de que são feitos os gerânios e os narcisos
e no jardim repleto de minha nudez, crescem,
em pequenas pirâmides de pó quase saudade,
sinuosos lamentos da nunca posse e da volátil entrega.

só me ocorre o sôfrego caminhar,
para ouvir uns passos, simulataneamente teus;
só me ocorre libertar da cama os lençóis,
dando de leito o meu corpo e de afago os meus cabelos.

por agora,
procuro-te onde te deixei na ultima noite, qual sombra de mim.

ISIN 989-95000-0-3

Fragmentos - Livro I - Ana de Sousa, 118

118

os lábios movem-se,
movem-se lentos os lábios,
entrecortando o rumor do respirar,
cicatrizando, nos instantes, os fogos que se ateiam sob a pele,
suspirando! suspirando apelos,
novelos de espasmos que descem à boca,
pressentindo a saliva na interior rugoso do beijo

movem-se os lábios
lentos, os lábios

tensas e finas linas que separam, tenuemente, os horizontes
e cortam o sangue que se pressente, pulsante,
escorregando no tortuoso gemido do acaso,
quando a língua escava e sulca, desbrava e conquista,
os arrepios das vermelhas folhas, levadas pelo vento
à conciliação do beijo,
que adivinhinando no percurso do orvalho, desenha pudores no teu peito
(um pássaro chamado "desejo" queima!)

os lábios movem-se,
movem-se lentos os lábios,
conspirando, na fulguração do simulado toque, a (tua) cama improvisada.

ISIN 989-95000-0-3

terça-feira, 28 de julho de 2009

Fragmentos - Livro I - Ana de Sousa, 39

39

sei que as noites não acontecem
sem que que se esgotem todas as sombras
e sem que das presenças cor de nada dos observadores
escrevendo os livros dos dias,
não se ergam espectros de densa sinuosidade (hunildade porosa)
que (me) atravessam os caminhos, hábitos
e os percursos naturais das serpentes - cicatrizes,
compondo a bocados orgânicos e ainda flamejantes
todos os enquadramentos possíveis à catástrofe a que se resume
cada pequena porção de loucura que retenho entre as mãos fechadas, feitas lugar remoto.

a noite chega espessa, reencontra-me no limiar do desejo beijo
e aos meus olhos bifurca-se em ecos, asas de libélula que se fragmentam e dispersam aladas
dos lábios - febris, irrompem adagas de luz que se fendem e implodem pela acidez, incerteza, retida na saliva.

fecho os olhos.
nesta paisagem vazia do corpo de mim, habitam pequenas larvas de paixão.

ISIN 989-95000-0-3

domingo, 26 de julho de 2009

Fragmentos - Livro I - Ana de Sousa, 37

37

meu amor, faltas-me.
em todos os instantes as marés arremessam saudade contra o deserto em que sou ilha húmida e fértil,

- aquieto-te -
existem mapas que são cuidadosamente tecidos a silêncios e sussuros, rotas que nascem com um único cruzamento e que são, por exemplo, por excepção, a escolha dos escolhidos.

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